Juntos somos a consciência que transmuta os tempos.
Qualquer coincidência com o tempo linear é mera semelhança.
Aqui todos os dias é "o dia fora do tempo".
Agora celebramos o solstício e o equinócio sem negócio.
O texto, por ser maioritariamente feito de vazio, pode conter tudo.
O texto metaforAmorfosea-nos a hélix.
Grata!

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sexta-feira, 26 de junho de 2015

"COMEÇAMOS A TER MEDO OUTRA VEZ"?




Chega o fim do ano letivo
e reviram-se os dossiers,
 mudam-se de prateleira e de divisão.
No processo, duas folhas soltam-se 
na probabilística da não resignação.
Embora falem do medo, ardem. 

Tudo se passa entre 2007,
(provavelmente antes) e 2015 e além. 
Ardem, sim, todavia, não como fósforos.

Inflamam-nos com duração e efeito indeterminados.








 Entrevista por Sérgio Almeida, in Jornal de Notícias, 1 de Julho de 2007

sábado, 6 de junho de 2015

#1 ÁGUA E LUZ


O riacho veste-a
de branco

: um quartzo em flor
fotonizando
o meio de tudo o que
no Corpo
é Meio


suzamna hezequiel

sexta-feira, 1 de maio de 2015

BRILHOS de Marília Miranda Lopes


Brilhos, brocados, copos de cristal
pirilampos nos cabelos

Desenterrais-me o olhar
das vossas cabeleiras com pérolas

Junto à porta ainda sinto o sufoco
a carruagem desenfreada, rua fora
o baile dos vaga-lumes
nas cabeças

A noite avança

Cofiam-se bigodes fartos, já sem políticas cartolas
Trincha-se
leitão luzidio, morto na travessa

Há toda uma armação
uma dobradiça que vos acompanha
para que vos senteis, elegantes, à mesa

O animal fumega

A violeta de Parma exala dos colos
!Ó femmes fatales!

(Comentais, entre risos, que George Sand prefere
ouvir Chopin com patchouli)

Não ouvis, lá fora, os acordes do povo sufocado
As execuções carecem de baunilha ou âmbar
Cheiram a carne assada. devoram
a liberdade absoluta.


Marília Miranda Lopes (in “Victorianas”, Labirinto de Letras, 2015)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

CARTA AO PAI de André Domingues


My father is one the best fathers in Europe
by any measure,
O poema vem equipado com um novo sistema de refrigeração
Essa inexplicável ternura que cobre as cidades intrincadas
a norte anónimas as faces são todas obra do meu pai
o meu pai que me vê sempre majestoso e inábil
e não há senão um enorme solavanco na sua mão majestosa e inábil
quando engendra uma carícia que nunca conhece
uma configuração,
que fica a pairar na indigesta velocidade da fábula
como uma dádiva enluvada, uma fonte permanente
de proteína animal,
descrevendo uma tendência milagrosa
para a ruína, o caminho de regresso à fatalidade,
na tarde opaca e equivocada.

My father is one of the best fathers in Europe
for any measure,
e talvez também a primeira pessoa
da santíssima trindade,
mas só aos domingos e feriados,
quando o universo entra em autogestão,
o sol coagula no canto superior direito
do meu cântico
e melhora a solicitude das amoras,
a coerência incessante da sala,
o ritmo vazio e bárbaro das congestões.

My father is one of the best fathers in Europe,
by any measure
o seu grande coração siberiano
a sua voz de permafrost
autêntica e lustral
o virulento comerciante
da inanição
agora, mais do que nunca,
silvam os pássaros.



quarta-feira, 1 de abril de 2015

MÃE, QUANDO EU FOR GRANDE QUERO SER FAROL (editado)


Mãe, eu quero ser a ponte entre a loucura e a ternura

Ser o princípio do fim da doença

: catalisadora de cura

A libertação da religião
; o nascimento da mais inteira compaixão

Incinerar pensamentos tóxicos

e exalar oxigénio enriquecido com serotoninas, lítio e endorfinas

– sem efeitos secundários ou contra-indicações –

Ser a primeira faísca que dissolve as trevas em fotões
Ser dissolvente de pânicos, fobias, traumas, inseguranças
complexos e todas as variantes do medo
Começar com a surpresa e acabar com o segredo
Ser o tesão dos frígidos e a coragem dos fracos

Eu quero ser ecocentro, eu quero ser ETAR
Eu quero ser reagente da expansão molecular

Ser a pomba da paz, Mãe
Congregar os diapasões de amar
Ser sorvedouro de nicotinas e alcatrões
de monóxidos e dióxidos de carbono e desaguar diamantes
Ser anjo e fada e acreditar como dantes

Mãe, eu quero despertar

suzamna hezequiel (aka suzana guimaraens) in paradox.sou, 2010

segunda-feira, 30 de março de 2015

SINERGIAS TEXTUAIS (editado)


Há um corpo menos escravo por aí
que contesta o embuste do a-braço
que se torna no busto-perna-braço
que adentra o corpo que habita o traço e que se quer mais alma

Há um corpabraço
desintoxicado dos barbitúricos claustrofóbicos
absolvido dessa parte material e almofadado de eridescências
salvo de indecências platónicas e de nascimentos apocalípticos
livre de anatomias agrilhoadas em rimas canónicas
ampliado conicamente pela mera vontade poética da engenharia dos materiais metorgânicos

Há um corpamplexo azul à solta
que se despe dos corpos inferiores
que afoga o afago no pensamento
como um ovo celeste por chocar
que desliza tela afora pela via dos membros superiores incomensuráveis
do Conselho Universal do xifoíde supra-astral

É a elegia à metáfora da fusão
a liberdade de Ayur

Na paleta das sinergias textuais
fora a fecundar que se fizera justiça ao genoma
e só assim puderam salvar-se uns aos outros
e viver felizes aqui mesmo


Tudo porque eclodiu esse corpo com braços que esticam como frases que não se conseguem terminar


suzamna hezequiel

domingo, 21 de dezembro de 2014

"NECESSIDADE INTERIOR"


"A “Beleza interior” resulta de uma necessidade interior imperiosa, de uma renúncia às formas convencionais de Belo. Os profanos chamam-lhe fealdade. O homem (hoje mais do que nunca) tem uma tendência para as coisas exteriores, e não consegue reconhecer naturalmente a necessidade interior. Esta recusa total das formas habituais do “Belo” torna sagrados todos os processos que permitem manifestar a sua personalidade. O compositor vienense Arnold Schönberg segue solitário esta via, reconhecido apenas por raros e entusiastas admiradores.
(...)

Schönberg pressente claramente que a liberdade total, sem a qual a arte se asfixia, jamais é absoluta. Cada época recebe a sua parte, e o génio mais poderoso não pode ir além deste limite. Mas esta medida tem de ser esgotada, de cada vez, e por inteiro, e assim o será sempre. Também Schönberg se esforça por esgotar esta liberdade, e neste caminho de “beleza interior”, já descobriu verdadeiras minas da “Nova Beleza”. A sua música faz-nos penetrar num reino novo, onde as emoções musicais não são apenas auditivas, mas também, e sobretudo, interiores. Aqui começa a “música do futuro”."


sábado, 20 de dezembro de 2014

"NUNCA É AXIOLOGICAMENTE NEUTRO"


“O facto de as mudanças correntes no nosso sistema de valores afectar muitas ciências pode parecer surpreendente para quem acredita numa ciência objectiva, axiologicamente auto-suficiente. Esta é, no entanto, uma das implicações importantes da nova física. O contributo de Heisenberg para a teoria quântica, que discuto em detalhe neste livro, implica claramente que a ideia clássica da objectividade científica não pode continuar a ser mantida, e do mesmo modo a física moderna desafia o mito duma ciência valorativamente neutra. Os padrões que os cientistas observam na natureza estão, intimamente, ligados aos seus modelos mentais, com os seus conceitos, pensamentos e valores. Consequentemente, os resultados científicos obtidos e as aplicações tecnológicas investigadas estarão condicionados pela sua estrutura mental. Apesar de muita da sua pesquisa minuciosa não depender explicitamente do seu sistema de valores, o grande trabalho de sistematização no qual esta investigação é levada a cabo nunca é axiologicamente neutro. Os cientistas são, por isso, intelectual e moralmente responsáveis.”